sábado, 27 de junho de 2009

Começar a matar

Estou a chegar a uma idade em que a vida começa a revelar-se a rameira que é. Primeiro, o divórcio; segundo, o pessoal mais jovem e com mais habilitações “literárias” começa a ocupar os cargos que nos deveriam caber por mérito e experiência; terceiro, começam a morrer os pais dos nossos amigos, os nossos tios, os nossos vizinhos. Tenho vezes em que dou por mim a pensar que não fui feita para o sofrimento, digo, acho que a minha geração não foi instruída para sofrer. Morria um avô ou avó e iamos ver televisão com um mano ou primo mais velho, que ficava encarregue de cuidar de nós enquanto os pais e restante família ia velar e enterrar o “morto”. Eu sei que o falecimento dos meus pais vai custar-me muito, isto se eu lhes sobreviver. Mas tenho manifestado o meu pesar ao meus conhecidos pelo falecimento dos seus entes queridos de uma foram um bocado... falsa. Encenada. Emociono-me a ver o sofrimento deles, não sou feita de pedra, mas sinto-me como que dormente em relação à morte. Se olho para um corpo , digamos, normal, sinto como se estivesse a olhar para uma escultura de cera cujo objectivo é fornecer um vislumbre da nossa “possível” morte. Só que esta é certeira.

Eu sinto-me inatingível pela morte, tal como me sentia inantigível pela doença ou pelos acidentes. Até que me acertaram em cheio...

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